A história de como um invento brasileiro foi usado por empresas de todo o mundo e de como o inventor foi injustiçado durante anos é contada na revista Época, edição de 17 de setembro deste ano, sob o título de ‘Gênio paciente’. As empresas de telefonia ganharam muito dinheiro cobrando pelo serviço de identificação de chamadas, sem repassar um centavo para o inventor do Bina que esteve prestes a ser despejado da casa onde mora de aluguel. Leia.
Mas Nicolai não ganhou fama ou fortuna. Ao cobrar pelo uso da tecnologia, ouviu de fabricantes e operadoras de telefonia que seria melhor buscar a Justiça. “Disseram que talvez meus bisnetos veriam alguma coisa”, diz. A morosidade do Judiciário foi, de fato, implacável. Só depois de 20 anos os direitos de Nicolai estão perto de ser reconhecidos. Na semana passada, foi determinado que a operadora Vivo pague a ele 25% do que ganhou com a cobrança do serviço.
Nicolai inventou o Bina em 1977, quando trabalhava na Telebrasília, operadora local da antiga estatal Telebrás. Identificar chamadas era uma forma de evitar trotes. A Telebrasília não quis implantar a novidade, por considerá-la invasão de privacidade. Nicolai registrou sua patente em 1980. A primeira aplicação veio dois anos depois, quando quatro aparelhos foram instalados na central dos bombeiros. Isso atraiu o interesse da empresa de telefonia Bell Canada, que enviou representantes ao Brasil para fazer uma parceria. O acordo não vingou. Em 1988, a Bell Canada lançou um identificador de chamadas próprio. Nicolai manteve o invento atualizado, de acordo com as novas tecnologias de telecomunicações, e patenteou-o de novo em 1992. A segunda versão foi licenciada em 1997 pela empresa sueca de telecomunicações Ericsson, que nunca pagou pelo uso. Nicolai decidiu entrar na Justiça em 2001.
O primeiro resultado da longa briga nos tribunais veio há dois meses, quando a operadora Claro fez um acordo com Nicolai para encerrar o processo, depois de perder nas duas primeiras instâncias. O valor não pode ser revelado por causa de uma cláusula de confidencialidade. Procurada por ÉPOCA, a Claro diz que não comenta o assunto. Da segunda vitória, nesta semana, contra a Vivo, ainda cabe recurso. A Vivo diz nunca ter cobrado pela identificação de chamadas. Afirma usar tecnologia própria e desqualifica a de Nicolai.
“A patente não se aplica à telefonia móvel”, afirma em nota. A Ericsson move uma ação na Justiça, com o argumento de que a patente não detalha suficientemente o sistema e não trata de tecnologia in´deitda.
Para custear o processo judicial, vendeu três apartamentos, carros e cotas de algumas indenizações que correm na Justiça, a R$ 100 mil cada uma. Antes do acordo com a Claro, estava para ser despejado da casa alugada em Brasília. Diz que, por essas dificuldades, aceitou um valor muito abaixo do que pedia. Comprou um apartamento e renovou sua vontade de brigar na Justiça. “Não vou mais ceder. Vou continuar a chamar a atenção para o absurdo que é o roubo de patentes no Brasil. Não sou um mercenário. Sou um idealista”.
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