terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Imperatriz, Cheia antecipada: Mais de 300 famílias desabrigadas

Antes do esperado pela Defesa Civil o Rio Tocantins atingiu quase nove metros acima do nível normal.
Redação

                                                                                                                                               






















Na edição de sábado, 07 de Janeiro, o Correio Popular publicou a matéria “Rio Tocantins começa a preocupar”, informando sobre os três metros
cima do nível normal das águas do rio detectados pela Defesa Civil do município na última sexta-feira, 06. Na ocasião apresentamos trechos da entrevista com o coordenador da Defesa Civil, Francisco das Chagas, realizada por volta das dez horas da manhã daquele dia, na Rua Nova (bairro Beira-Rio) enquanto ele e equipe realizavam o cadastramento das famílias ribeirinhas de cinco bairros da cidade. Era apenas uma parte do plano da Prefeitura de Imperatriz. O próximo passo seria preparar locais para receber desabrigados em uma eventual enchente. Mas não deu tempo.

Bem antes do esperado pelos técnicos da Defesa Civil o Rio Tocantins atingiu quase nove metros acima do nível normal. Suficiente para o socorro não chegar a tempo e cerca de 300 famílias ficarem desabrigadas. Essa era a situação na noite do ultimo domingo. Ainda na manhã de sexta-feira Francisco das Chagas explicava que o rio estava “num sobe e desce”, mas se mantendo sempre a dois metros no nível em razão da abertura das comportas da hidrelétrica de Estreito e da quantidade de chuvas. “Não está chovendo forte aqui, mas acima (cabeceiras) está chovendo muito”. O coordenador dizia que um volume maior de chuva deveria cair nos próximos meses na região e que o rio poderia alcançar o nível que acende o alerta no município - sete metros - “entre o final de março e o inicio de abril”, previa. Francisco não imaginava, mas faltava menos de 24 horas para ele e os moradores ribeirinhos se surpreenderem. 

Na madrugada silenciosa o rio avançava e às seis da manhã “batia” à porta de fundos de algumas casas da Rua Nova. Era a primeira cheia de 2012. Por volta de meio dia havia avançado alguns metros e alcançado as residências da Rua Niterói e parte da Rua Luis Domingues. Ali ele parou, e nem precisava mais avançar. Casas haviam sido abandonadas, algumas vazias, outras repletas de móveis. Comércios foram água abaixo, crianças se agarravam aos bichos de estimação, adultos se viravam como podiam e a Defesa Civil ainda não estava preparada (relatos que você acompanha nas páginas 05 e 06 dessa edição). O Domingo era mais um dia de cadastro. Seriam as famílias do bairro Caema. Por volta das 8h da noite encontramos Francisco com a equipe da Defesa Civil na Rua Luis Domingues, ao lado de famílias inteiras com pertences no olho da rua. 

Explicações 

“Nós nem conseguimos nos planejar nem nos organizar para receber esse evento, as pessoas ficam reclamando e eu dou razão. Queríamos fazer o máximo, mas infelizmente nos pegou em um domingo, não encontramos caminhões (da prefeitura) nem os motoristas (...), não tínhamos abrigos preparados e agora no final da tarde é que conseguimos falar com o presidente do Sinrural e ele nos autorizou entrar com as famílias. (...) Você pode ter convicção que essa situação vai se repetir no inverno mais de três vezes”, declarava Francisco, domingo à noite.

Segundo o coordenador da Defesa Civil, somente no sábado (07), às 7h da noite ele teria recebido informações do setor de operação da hidrelétrica de Estreito de que a vazão da passaria de 5 mil para 12 mil metros cúbicos por segundo “e foi isso que aconteceu por volta de 6h da manhã (domingo)”, explica. Francisco das Chagas disse que por volta de 1h da manhã do domingo a Defesa Civil visitou o Porto da Balsa e conferiu que o rio ganhava volume. O próximo passo, segundo ele, foi tentar contato com funcionários da prefeitura logo no inicio do dia, mas sem sucesso. “Voltamos aqui 9h da manhã, mas de mãos atadas, sem poder fazer nada em relação à retirada das famílias. A água já tinha tomado conta de tudo (...), foi uma comunicação tardia”, justificava, informando que, no momento da entrevista, dez horas após o inicio da cheia, o município tinha conseguido colocar três caminhões à disposição das dezenas de famílias. Um deles era alugado. 

Durante os trabalhos de retirada das famílias atingidas pelaa cheia inesperada do Rio Tocantins, vários moradores rebatiam as informações do coordenador da Defesa Civil. “Ele vem me dizer que essa enchente pegou de surpresa a Defesa Civil... É a primeira vez que vejo na história do nosso país um secretário de Defesa Civil dizer que foi pego de surpresa, que não tem gente pra trabalhar. Apoio logístico todo mundo dá, acho que ele foi equivocado em dizer que não tinha gente para trabalhar por que era domingo. Acho que a Defesa Civil deve estar pronta pra agir em qualquer momento”, reclama Antônio de Sousa, que se apresentou como conselheiro de segurança do Estado do Maranhão. Outros moradores se interrogavam sobre quem seria o responsável pelos prejuízos sofridos.

Outro lado

Nossa reportagem entrou em contato com a diretoria do Consórcio Estreito Energia - Ceste, no Rio de Janeiro, e interrogou o diretor de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da empresa, Dimas Maintinguer. Ele respondeu sobre a suposta demora no repasse de informações do aumento da vazão do Rio Tocantins apontada pela Defesa Civil de Imperatriz, o que, segundo Francisco das Chagas, teria sido o motivo principal dos transtornos causados no inicio da semana. 

Dimas explicou que qualquer variação na vazão do rio é comunicada imediatamente aos municípios localizados próximos à hidrelétrica e que a Defesa Civil de Imperatriz foi informada na sexta-feira, dia 6, e recebeu três telefonemas no sábado, 7, além de um email no inicio da noite. “Todos os contatos informando que a vazão do Rio Tocantins ficaria maior no sábado devido a quantidade de chuvas que caiu na região de Lageado (...). É uma situação natural do rio e nós tivemos o cuidado de informar o que estava acontecendo e que esse grande volume de água chegaria em Imperatriz”, declara o representante da diretoria da Ceste.

Mas tarde nossa redação recebeu uma nota assinada por Dimas Maintinguer, com a seguinte mensagem: 

“O CESTE informa que dentro de sua política de relacionamento institucional mantém contato com a Defesa Civil dos Estados do Maranhão e Tocantins a respeito do monitoramento das vazões do Rio Tocantins, na região interferida pela UHE Estreito. Dentro deste procedimento estabelecido, no ultimo dia 06 de janeiro de 2012, o CESTE informou à Defesa Civil destes dois Estados, na pessoa de seus coordenadores regionais, sobre a observação de grandes precipitações na região do médio norte do Estado do Tocantins, mais especificamente nas áreas da UHEs Lajeado e Peixe Angical, que trariam consequências para a vazão do Rio Tocantins, inclusive na região de abrangência da UHE Estreito. Este contato tinha por objetivo alertar sobre eventuais providências que estes órgãos entendessem cabíveis, em face das informações repassadas. Vale ressaltar que é notório que o fato ocorrido é típico na região neste período de chuvas, com a ocorrência de maiores vazões no Rio Tocantins, que não podem ser retidas na UHE Estreito”. A DIRETORIA.

No final da produção dessa matéria, o nível do Rio Tocantins havia baixado três metros. A prefeitura de Imperatriz havia conseguido alojar 55 famílias em abrigos improvisados no Parque de Exposições e na Escola Paulo Freire. Cestas básicas devem ser distribuídas na manhã de hoje nesses locais. 

Por Hemerson Pinto

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